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Música na Terra do Gelo e do Fogo

Não, o título não tem nada a ver com a obra do R. R. Martin – que, admitamos, se não fosse um escritor bem sucedido poderia trabalhar de Papai Noel.

A Terra do Gelo e do Fogo a que me refiro é, claro, a Islândia. Sim, aquela ilhota gelada entre o Reino Unido e da Groenlândia, que, se não fosse por uma grave crise financeira que quase levou metade dos aposentados britânicos à penúria, e também por um vulcão de nome impronunciável que resolveu explodir e cuspir fumaça para toda a Europa continental, provocando um caos aéreo ainda mais grave que o causado pelos atentados terroristas de 2001, a pequena, calma e inofensiva Islândia continuaria passando despercebida aos olhos da maioria dos terráqueos.

Para quem é apaixonado por música, contudo, vale a pena perder uns minutos e procurar as notícias do backstage musical islandês. Assim como são ultra-protetores da própria cultura, os islandeses idolatram a música, e não por menos são relativamente famosos por isso.

Há um ano era inaugurada, próxima ao porto da capital Reykjavík, o mais novo concert hall europeu: Harpa.
Depois de muitos anos de construção (e algumas paralisações, tendo a crise financeira de 2008 quase inviabilizado seu término), a obra foi concluída, e agora enche os olhos de qualquer um que nela mire o olhar.
O prédio foi projetado pelo escritório de arquitetura dinamarquês Henning Larsen Architects, com contribuição do artista islandês Ólafur Elíasson.


A sala principal, Eldborg, tem capacidade para 1800 pessoas, e abriga a Orquestra Sinfônica da Islândia e a Ópera Islandesa.

A Islândia vem investindo cada vez mais em si mesma para, assim, atrair os olhos do mundo para si e receber investimentos estrangeiros. Um dos planos de investimento é, graçasadeusmente, na cultura.


De 18 de Maio a 03 de Junho, anualmente, ocorre o Festival de Artes de Reykjavík, um dos mais respeitados da Europa.

Contando com concertos, peças de teatro, exibições, números de dança e ópera, o festival atrai, principalmente, pessoas de toda a Europa – onde viajar de avião é bastante barato –, já tendo se consolidado como um dos mais importantes festivais de artes do continente.

Não fosse isso o bastante, no período de 31 de Outubro a 04 de Novembro, Reykjavík sediará o festival Iceland Airwaves, com dezenas de bandas e músicos de todos os cantos, e, neste ano, com a volta da banda Sigur Rós, que há 11 anos não se apresenta no festival.

Assim, a Islândia não é apenas um lugarzinho gelado no meio do nada (na verdade, por causa da Corrente do Golfo, a capital, Reykjavík, tem temperaturas médias muito mais altas que Nova York, Montreal ou Toronto, por exemplo).

Ísland não é somente uma terra inóspita onde tudo o que existe para se fazer é ver geleiras, campos de magma, vulcões, gêiseres, andar nos simpáticos cavalinhos islandeses e engolir tubarão podre com a ajuda de Brennivin, a bebida alcóolica mais horrorosa que o ser humano já inventou (depois da Kaiser). Não. A Islândia oferece, sim, uma considerável programação cultural que, se continuar se expandindo no atual ritmo, acabará entrando definitivamente nas agendas culturais internacionais.

Isso não quer dizer, contudo, que não haja lugares aterrorizantemente gelados e desolados noutras áreas do país, como você pode verificar na foto ao lado, que tirei quando morei por lá.

Ou seja, queira artes ou belezas naturais – ou, melhor ainda, um pouco de casa coisa – ignore o tom publicitário deste post (não estou sendo pago pelo Departamento de Turismo Islandês, não!) e pense na possibilidade de visitar a terra que inspirou tanta gente, do grande Júlio Verne ao pobre... eu!

Que a magia esteja com você!


M. H.

Inspira ação!

De onde vem a sua inspiração para escrever estórias?

De músicas?

De filmes?

De caminhadas solitárias?

Olha, meu filho, tomar um capuccino no Le Deux Magots, esperando baixar o espírito dos seus antigos frequentadores (como Picasso e de Beauvoir) não parece uma ótima ideia? Ou almoçar no La Coupole, em Montparnasse, esperando trombar com o comissário Maigret, do Simenon? Mas tudo bem, eu sei, não é sempre que podemos ir a Paris escrever, fazer o quê. Falta tempo. Certo?

Então deixa eu te contar um segredinho. Inspiração não serve para escrever. Inspiração serve para inspirar. Para escrever, somente serve... escrever. É o que eu gosto de chamar de "senta essa bunda gorda na cadeira e escreve!". É isso que funciona.

Não que os momentos de inspiração não sejam importantes - eles são! Anote as ideias inspiradas. Grave as ideias inspiradoras. Quando a inspiração espancar sua porta, atenda-a, dê-lhe atenção. Mas a inspiração é uma prima donna, uma musa excessivamente temperamental, de fazer inveja a Maria Callas e a Renata Tebaldi. Ela vem, dá o ar da graça, e desaparece por mais um tempo. E nesse tempo você precisa ralar o seu traseiro até a próxima aparição da casta diva.

Uma vez eu enviei uma estória que escrevi para um escritor de quem eu gostava muito, e cujos livros infanto-juvenis foram um incentivo enorme para eu escrever. Mandei despretensiosamente, para a editora que publicava os livros dele, queria apenas compartilhar a minha estória com meu escritor favorito. Alguns meses depois recebi um pacote em casa com vários livros dele, autografados, uma carta e a minha estória de volta, do jeito que a mandei, encadernada em espiral. Com uma diferença: estava toda rabiscada a lápis. O escritor se deu o trabalho de ler a estória toda e escrever apontamentos indicando, aqui e ali, o que estava errado, o que podia ficar melhor, sempre em tom de incentivo, de apoio. E, na carta, ele me disse: "Leia sempre. E escreva, escreva, escreva, escreva, escreva, escreva".

Se você passa horas e horas todos os dias imaginando a sua estória, lembre-se de que pensar na estória não é escrever. Você pode desenvolver seu romance de cabo a rabo no HD da sua cebecinha. Nada disso vai adiantar se você não jogar isso tudo no papel. E não se esqueça, ainda, de que você conhece a sua estória, os seus personagens. Seu leitor, não. Ele só sabe aquilo que você lhe mostra, depois que lhe mostra. Antes, não. Por isso, você precisa mostrar, mostrar, mostrar. E, para mostrar, bote no papel, raios! Sente no diabo da cadeira e comece a escrever, seja a caneta ou digitando no computador, o que lhe for mais eficiente. Se você não tem a menor ideia do que vai escrever, escreva qualquer coisa. Mas escreva. Nem que seja uma versão romanceada de uma receita de bolo.

Marcela atravessou a cozinha com os braços atulhados: bacia, liquidificador, assadeira, medidores. Ela suspeitava que nunca conseguiria fazer igual à mãe, que parecia simplesmente jogar todos os ingredientes na assadeira, dar três batidinhas mágicas e voilà!, pronto mais um delicioso bolo de fubá para comer com mel. Não, ela precisava medir ingrediente por ingrediente, da farinha à erva-doce, tudo miligrama e mililitramente. Sobre a pia já estavam os ovos, o óleo, o açúcar e  todo o resto daquelas coisas que, sozinhas, eram absolutamente sem graça, mas que, através de uma apresentação de alquimia, se transformavam em delícias que compensavam o pecado da gula.

Pode parecer inútil, escrever sobre qualquer coisa, bah!, mas não é. Escrever, meu filho, não é inspiração. É trabalho duro. É difícil. Dói. A maioria de nós não somos (porque me incluo, mesmo) disciplinados, e tem a maldita internet pra nos desviar do caminho. Dar aquela checadinha no Facebook. Ou aquele site nerd sempre tão legal. Para. Desliga a porcaria do modem, se for preciso. Tira a TV e o telefone da tomada. Joga fora o pote de Häagen-Dazs (não, tudo bem, isso é demais).

Talvez você nunca use muito daquilo que escreveu nesses momentos de intenso e incontido palavrório. Mas servirá, acredite, ao menos para você ganhar ritmo, fluência, intimidade com o ato de escrever. Por isso, enquanto a inspiração não vem, meu filho, a receita é simples: "inspira... ação!". Respire fundo e bote os dedos pra trabalhar, que no fim das contas vale a pena. Se vale.

Que a magia esteja com você!

M. H.

Back to black

Pessoas! Acabo de perceber que faz  mais de um ano que não posto aqui. Eu sabia que fazia tempo, mas não tanto! É ruim ficar muito tempo longe, mas também é muito bom estar de volta. E, agora, com  uma etapa concluída: terminei o mestrado, que rendeu uma dissertação de quase 200 páginas, ao custo de muitas e muitas noites de três ou quatro horas de sono (já que trabalho o dia todo). Depois de duas horas de banca, ouvir as palavras "sr. Mário Henrique, o senhor foi aprovado" foi uma sensação muito, muito boa. Sabem quando um peso enorme rola costas abaixo? Pois então. Foi um peso duplo, porque além do fim da natural pressão para concluir o mestrado, findou-se, também, um compromisso que, quisesse eu ou não, me afastava do arquivo de Word para o qual eu realmente queria estar correndo os dedos pelo teclado: minha estória!

E, nesse meio tempo (desde algumas semanas antes da banca examinadora do mestrado) algo muito importante aconteceu: eu conheci o James McSill, consultor literário internacional, coach de autores que pretendem se profissionalizar. Há aqueles escritores que, por vaidade ou qualquer outro motivo, preferem não divulgar que fizeram cursos nem que buscaram ajuda profissional para também se profissionalizar. Bobagem. Há, de fato, uns punhados de pessoas aí, pelo mundo, que são estelares por natureza, e não precisam de qualquer tipo de intervenção para produzir trabalhos excepcionais. Essas pessoas são excepcionais, tanto no sentido de serem excelentes, como de serem exceção. A regra é a labuta. Aprender o que não sabe e melhorar o que sabe. Tudo isso aliado à criatividade - essa sim, que geralmente ou vem de fábrica, ou não.

A parceria com o James McSill já rendeu frutos. Ele gostou do meu texto, e indicou-me para colaborar com uma autora que já é sucesso de vendas no mercado editorial brasileiro. Estamos, no momento, trabalhando num texto, e eu, paralelamente, continuo a maquinar minha própria estória, que tende a se transformar em livro o mais breve seja possível.

Talvez o que eu tenha aprendido de mais valioso nas sessões de coach com o James, e mesmo no seu evento Write in São Paulo (que contou com uma excelente turma de escritores iniciantes e iniciados), foi que a literatura - ao menos a de entretenimento - é um negócio. E, sendo um negócio, deve ser encarada como tal: profissionalmente. Você pode ter a melhor ideia, as melhores intenções e os melhores motivos do mundo: se não agir profissionalmente (o que, via de regra, implica em fazer concessões, engolir sapos, cair, levantar-se, sacudir a poeira e seguir em frente), seu futuro no mercado acabou antes de começar.

Estamos de volta, dessa vez, para ficar - e para ficar muito bem!

Que a magia esteja com você!

M. H.

Annabel & Sarah, de Jim Anotsu

A chuva acaba de recomeçar. Bem, está mais para um temporal daqueles de esconder o poodle debaixo do sofá. Eu estava indo para o epílogo de Annabel & Sarah, de Jim Anotsu (São Paulo: Editora Draco, 2010, 156. pág.) quando um trovão tentou - e quase conseguiu - arrancar a janela do meu quarto. São duas e meia da tarde, mas os postes estão acesos.

A primeira coisa que me chamou a atenção em Annabel & Sarah foi seu conceito visual. Eu detesto rosa, mas definitivamente não poderiam ter usado combinação melhor para compor a capa do livro. Os interlúdios nas páginas pretas também deram um toque especial à composição. Tudo isso valorizou, e muito, o conteúdo da obra. Há quem não se importe, mas na minha opinião a apresentação de um livro pode contribuir sensivelmente para a apreciação do conteúdo.

Confesso que eu não esperava muita coisa de Annabel & Sarah. Não com relação à qualidade do trabalho, mas com relação às expectativas enquanto leitor - simplesmente porque esse não é o meu tipo favorito de leitura. Assim, fiquei especialmente contente quando percebi que não apenas a história tinha qualidade, mas também era muito interessante.

O romance de estreia de Jim Anotsu, um cara jovem e com uma bagagem cultural invejável - que se pode reconhecer através das muitas referências no decorrer da história -, possui uma fórmula simples: duas pessoas muito próximas - mas completamente diferentes uma da outra -, em conflito, se vêem obrigadas a superar inúmeras dificuldades para se salvarem, e, é claro, salvarem uma à outra. Para isso, vão a mundos fantásticos, onde quaisquer absurdos podem acontecer - e acontecem -, embarcando numa aventura cheia de fantasia noir, aliada a uma boa dose de sarcasmo com a qual eu, obviamente, me identifiquei de imediato.

Após o pontapé inicial, quando o conflito parte deste mundo para os mundos fantásticos em que Jim Anostu atirou suas gêmeas-protagonistas - a patricinha enjoada Sarah e a rebelde punk-rock Annabel -, é possível identificar referências ocultas - propositais ou não. O mundo de Sarah parece uma versão sombria de Alice, enquanto o de Annabel tem o delicioso gosto de uma mistura entre Sin City e Uma cilada para Roger Rabbit.

Na minha opinião, a melhor personagem do livro é a jovem Beatrice, que auxilia Sarah, não apenas pela sua excentricidade - algo entre a Rainha Branca, de Alice (do Burton) com a sensacional Luna Lovegood, de Harry Potter -, mas também pela notável referência à Divina Comédia.

Assim, para resumir: o livro é bom. Mesmo. E é especialmente bom porque foi escrito por um autor iniciante, brasileiro, e publicado por uma editora que tem por objetivo escancarar as portas do mercado editorial brasileiro para esse tipo de autor. Os leitores tupiniquins só têm a ganhar.

Sei que esta parece uma resenha sem cara de resenha, mas, particularmente, eu não gosto de falar muito sobre os livros de que gostei, simplesmente porque quando gosto de uma história, gosto que outras pessoas se impressionem e deliciem com ela da mesma maneira que eu. Por isso, para mim, as resenhas deveriam servir única e tão-somentemente para dizer se o livro é bom ou não, e se outras pessoas deveriam ou não lê-lo, e por quê.

Assim, posso dizer que Annabel & Sarah, de Jim Anotsu, foi uma surpresa "muito boa-boa", principalmente por ter saído da cabeça e dos dedos de um cara tão novo, que, dada a qualidade do seu precoce trabalho, certamente terá muitas coisas boas com que nos surpreender daqui pra frente. Enquanto isso, a chuva continua a açoitar a janela do quarto. Vai ser uma viagem animada, pela Castelo Branco, de volta a São Paulo.

Que a magia esteja com você!

M. H. 

Resoluções de Ano Novo

Resoluções de fim de ano tendem a não dar muito certo, especialmente à medida em que vamos ficando mais velhos. Maus hábitos antigos, ou apenas hábitos que não sejam necessariamente maus, mas que apenas nos incomodem, tendem a ser muito difíceis de ser mudados, simplesmente porque mudar é, em si, muito difícil.
Ainda assim, resoluções de fim de ano têm lá sua serventia. Servem, pelo menos, para nos sentirmos culpados por não fazermos aquilo que traçamos como meta, como objetivo. Não que se sentir culpado seja lá algo minimamente desejável, mas de um certo modo serve para nos dissuadir de descumprir as resoluções feitas.

Por isso resolvi me obrigar a algumas resoluções de ano novo, dessas que não exigem vestir roupa branca nem pular sete ondinhas. Nenhuma delas é relacionada a hábitos alimentares mais saudáveis, porque o McDonald's é uma das minhas fontes de inspiração. Nenhuma delas é relacionada a perder peso, porque não podemos perder algo que não possuímos. Nenhuma delas tem qualquer coisa a ver com cortar prazeres, porque eu definitivamente não poderia viver sem Internet, sem comprar livros compulsivamente ou sem ouvir Stairway to Heaven pelo menos uma vez por dia.

Não, minhas resoluções são tão modestas que nem deveriam ter sido objeto de resoluções, mas simples consequências naturais daquilo que eu já venho fazendo. São objetivos muito mais alcançáveis do que ficar sem Internet, sem comprar livros ou sem ouvir Led diariamente. O problema é que essas três compulsões são hercúleas, então ser menos difícil que elas não significa ser fácil.

Uma delas é em relação à minha dissertação de mestrado. Tenho, necessariamente, de terminá-la até junho. Esse não é o prazo final, mas é o meu prazo final, porque a partir do meio do ano quero dedicar-me inteiramente ao livro, Sagas de Hartvellir: A guerra dos dragões, que anda mais abandonado que cão sarnento. Vivo me flagrando sentindo falta das personagens da história. De alguma maneira elas passaram a fazer parte da minha vida de uma maneira indissociável. O Kjartan, o Helgi, e as demais personagens ficam ali, na última página que escrevi até agora, levantando o maço de folhas anteriores e me lançando um olhar de quem diz "e aí, meu, dá pra agilizar essa parada?".

É que foram tantas as idas e vindas desde junho até agora, troca de empregos, metas, horários malucos de trabalho, cargas horárias ainda mais malucas, obrigações com isso e com aquilo, que foi praticamente impossível sentar e dizer: "agora vou escrever". Invariavelmente o cansaço e/ou o mau humor eram tão grandes que nada que valesse a pena sairia do papel.

Então, para não me afastar totalmente desse mundo que um dia começou a brotar da minha cabeça, resolvi que, pelo menos enquanto não posso escrever o livro - por estar atolado até o pescoço na dissertação do mestrado -, vou escrever aqui no blog, com certa regularidade, porque também ninguém é de ferro. Eu gosto de Direito, e bastante, mas para mim não se trata de viver nesse "mundo jurídico" e escapar para o mundo de Hartvellir. É justamente o contrário. É a este mundo que pertenço, é nele que me sinto bem, que me realizo. Sabe quando você vai passar as férias num lugar que é muito legal, mas depois de algum tempo não vê a hora de voltar para o conforto, a segurança e o aconchego do seu lar, doce lar? Pois então. Aqui, no "mundo jurídico", é assim que me sinto. Bem, mas mal podendo esperar o retorno ao meu mundo de Hartvellir.


Que a magia esteja com você!

M. H.

Viva a narcolepsia!


Depois de ter desaparecido por muitos dias, de volta ao blog, hoje para um post rápido e, ao final, muito, muito triste.

Antes disso, contudo, uma justificativa: fiquei completamente ausente do blog por um tempo porque, como a maioria de vocês deve saber, fim de semestre só não é mais estressante que ouvir essas malditas vuvuzelas - e este ano veio tudo junto: fim dos créditos do mestrado (com aulas para assistir, com trabalhos para fazer e apresentar, aulas para dar, provas para aplicar), essa Copa salafrária, que mais parece a Série B do Campeonato Paulista, e, para completar tudo, comecei a trabalhar.

Pois é, muito embora eu sempre tenha sido adepto da filosofia Madruganiana (também acredito que não existe trabalho ruim, o ruim é trabalhar), chega uma hora que você precisa começar a morrer de alguma coisa, então cá estamos: passando 12 horas por dia trabalhando em algo que não amamos, para ganharmos um dinheiro de que não precisamos e correspondermos a expectativas que não são nossas. Certo, estou exagerando um bocado (até porque eu gosto de advogar, e definitivamente preciso do dinheiro hehe), mas o que quero dizer é que eu definitivamente preferiria estar, por exemplo, dentro de um quartinho escuro e frio no sótão de um casarão de 200 anos na Toscana, escrevendo meu livro. Quem sabe um dia.

Assim, com o começo do trabalho, meus horários viraram uma verdadeira bagunça. Como eu estava acostumado a ir dormir todo dia por volta das 3 da manhã, e acordar lá pelas 10, foi um tremendo choque passar a levantar às seis da matina, sem conseguir, contudo, dormir antes das duas. Imagine o que dormir por 4 horas e trabalhar durante 12 faz com um ser humano - especialmente um que gosta bastante de dar oportunidade para sonhos absolutamente incríveis e sem sentido se desenvolverem. Tive de passar a me manter em pé à base de cafeína, e eu detestava o gosto de café, muito embora adorasse o cheiro. Dez dias disso e sobreveio não apenas uma estafa mental, mas também uma virose que me obrigou a manter-me perto do meu banheiro por dois dias.

Agora as coisas começarão a se ajustar, e se ajustar pelo relógio do trabalho. E, como eu preciso escrever a minha dissertação do mestrado, nas horas que me sobrarem, vai ficar um pouco difícil dedicar muito tempo ao livro, o que é, de fato, muito, muito triste. Eu pensei em correr com o livro, mas... essa história é parte de mim, da minha vida, dos meus sonhos, e não quero fazer nada com pressa e sem qualidade. Por isso, infelizmente, terei de adiar um pouco a conclusão das Sagas de Hartvellir - A Guerra dos Dragões.

Mas vocês podem estar se perguntando: onde está a tristeza do post? Está no fato de que ontem pela manhã deixou-nos o Saramago. Ele, que, como a avó, sentia muita pena de morrer, morreu. Sem sombra de dúvida o mundo ficou menos inteligente ontem, e o comunismo perdeu metade da sua inteligência. Saramago era uma das poucas coisas que tornavam o comunismo minimamente respeitável. E, agora, foi-se. Não digo que foi com Deus, porque acho que ele não gostaria. No fundo acho que não é que o Saramago não acreditasse em Deus: apenas não gostava dele - o que, de fato, é muito mais corajoso do que não acreditar.
É, o Saramago era um dos poucos seres humanos que tinham envergadura para não gostar de Deus.

É algo desalentador, mas no fim das contas, é melhor pensar que, assim como os grandes gênios, Saramago só vai morrer, mesmo, quando morrer a última pessoa que estava viva à época da sua morte. Aí sim o mundo poderá lembrar-se do gênio formidável como uma mente que foi brilhante. Até lá, Saramago ainda vive.

Em tempo: acho que foi bom o Saramago ter ido embora agora. Em outubro será lançada a biografia da Geisy Arruda, do alto de seus 21 anos, e o pior: quase na mesma língua que a do Saramago. Ele não mereceria.

Não entre em pânico.


Hoje, 25 de Maio, é comemorado, pelos fãs de Douglas Adams (o criador da série O Guia do Mochileiro das Galáxias), como o Dia da Toalha. Mas que diabos é isso?

O Guia do Mochileiro das Galáxias nasceu como uma novela de rádio, criada por Douglas Adams, no Reino Unido, no fim da década de 70. Depois foi transformada na famosa série de 5 livros e, em 2005, virou filme (destaque para o ator Alan Rickman, que dá voz ao andróide paranóico Marvin).

A história criada por Adams é, sem dúvida, uma das mais embebidas em LSD da literatura mundial. Ficção científica cheia de humor, ironia e sarcasmo, O Guia do Mochileiro das Galáxias (que em Portugal possui o hilariante nome de "À Boleia pela Galáxia"), conta a história de Arthur Dent, um daqueles ingleses chá-das-cinco-assistindo-a-um-lugar-chamado-notting-hill, cujo melhor amigo, Ford Prefect, é um extraterrestre, que o avisa que os dias da Terra estão contados: ela será demolida para a construção de uma nova via hiperespacial intergalática. Momentos antes da destruição da nossa querida bolinha azul, Prefect usa sua toalha para pedir carona, para ele e para Dent, a uma das naves Vogon (que irão destruir a Terra), e é aí que começa a sua aventura.

Assim, a toalha é o item mais importante da mochila de um Mochileiro das Galáxias, e além de servir para o mochileiro pedir ajuda numa situação de emergência, serve para incontáveis propósitos, como o próprio Adams enumera:

  • Pode usá-la como vela para descer numa minijangada as águas lentas do rio Moth;

  • Pode umedecê-la e utilizá-la para lutar em combate corpo a corpo; enrolá-la em torno da cabeça para proteger-se de emanações tóxicas ou para evitar o olhar da Terrível Besta Voraz de Traal (um animal estonteantemente burro, que acha que, se você não pode vê-lo, ele também não pode ver você – estúpido feito uma anta, mas muito, muito voraz);

  • E naturalmente pode usá-la para enxugar-se com ela se ainda estiver razoavelmente limpa.

  • Porém o mais importante é o imenso valor psicológico da toalha. Por algum motivo, quando um estrito (isto é, um não-mochileiro) descobre que um mochileiro tem uma toalha, ele automaticamente conclui que ele tem também escova de dentes, esponja, sabonete, lata de biscoitos, garrafinha de aguardente, bússola, mapa, barbante, repelente, capa de chuva, traje espacial, etc., etc.

  • Além disso, o estrito terá prazer em emprestar ao mochileiro qualquer um desses objetos, ou muitos outros, que o mochileiro por acaso tenha “acidentalmente perdido”. O que o estrito vai pensar é que, se um sujeito é capaz de rodar por toda a Galáxia, acampar, pedir carona, lutar contra terríveis obstáculos, dar a volta por cima e ainda assim saber onde está sua toalha, esse sujeito claramente merece respeito.

Assim, em homenagem ao insuperável Douglas Adams, que morreu precocemente em 2001, aos 49 anos, hoje é o dia de qualquer nerd que se preze andar por aí com uma toalha no pescoço, no ombro, na cintura, ou onde quer que seja. Apenas não entre em pânico, resistir é inútil. E lembre-se de que, não importa o que aconteça, tudo o que você precisará quando o universo acabar será de uma toalha.


Que a toalha esteja com você!

M. H.

Ler, ler, ler!

É certo que para aprender a escrever, você precisa escrever muito, e sempre. Igual importância tem, também, a leitura. Lendo você se familiariza com as palavras, que são, no fim das contas, seu instrumento de trabalho.

Ter uma ideia para uma história é apenas o primeiro - e mais simples - passo. Uma ideia excelente pode resultar em nada se não soubermos trabalhá-la. E aprendermos a trabalhar nossas ideias é bastante complicado, principalmente porque não existe uma fórmula: cada pessoa tende a desenvolver sua maneira preferida de trabalhar suas ideias. Eu, por exemplo, ainda estou desenvolvendo a minha, e tendo sérios problemas com isso, dada a minha respeitável falta de organização.

Basicamente existem duas maneiras de se desenvolver a sua história: ou você vai escrevendo tudo que lhe vem à cabeça, sem organização alguma, para depois, quando todo o material estiver no papel, reler tudo inúmeras vezes, e reescrever tudo, provavelmente mais uma vez; ou então fazer um grande  rascunho da história toda, e depois ir escrevendo com considerável senso de direção. Qual a melhor maneira? Ambas, ou nenhuma. Depende exclusivamente de como você se sente melhor para escrever. No meu caso, eu não consigo ir escrevendo conforme a criatividade vai surgindo, assim, sem um plano pré-estabelecido. Preciso ter ao menos uma vaga ideia de como a história estará mais para frente, para saber que caminho precisarei ter deixado para trás.

Além disso algo que sempre ajuda muito é a pesquisa. Se você quer escrever Ficção Científica, leia muita Ficção Científica. Leia livros que darão suporte fático, credibilidade à sua história. Se eu fosse escrever um romance histórico, me mataria de tanto pesquisar o que aconteceu naquele lugar, naquela época, com aquelas pessoas, para tornar a minha história crível. Por isso, para escrever as Sagas de Hartvellir, além de ler todos os livros de High Fantasy em que consigo por as mãos, tenho lido muita literatura de referência, livros que não são de Ficção. Por exemplo: o começo do livro se passa na Islândia dos dias atuais, e as personagens principais são islandeses. Para tornar a história mais verossímil, li "The History of Iceland", de Gunnar Karlsson. Ele ajudou a entender como são os islandeses, e por quê. Além disso, o restante da trama se passará num cenário fantástico, mas que em boa parte lembra a islândia medieval, motivo pelo qual li "Viking Age Iceland", dentre outros livros que tratam especificamente da Europa na era medieva. Tudo isso nos ajuda, e muito, a construirmos nosso mundo.

E se você mora numa cidade grande o suficiente, não precisa sequer se preocupar em comprar os livros: se procurar direito, vai encontrá-los enfiados n'algum canto obscuro das bibliotecas. Se você quer encontrar os livros mais interessantes, procure onde ninguém passa há muito tempo. Se conseguir tirar um punhado de pó do livro, melhor ainda, isso quer dizer que você provavelmente encontrou alguma coisa que vale a pena ao menos dar uma espiada. Sebos também costumam ser de grande ajuda, especialmente os menos visitados. Alfarrabistas são preciosidades, portanto, se encontrar um, aproveite - ele provavelmente terá muito a oferecer.

Agora, se dinheiro não é um problema para você, vá direto aos sites de livrarias, ou mesmo a Amazon.com, e faça a festa. Apenas lembre-se de que se ninguém quiser ter o trabalho de ler bastante para escrever melhor, ninguém lerá coisa alguma - e isso inclui a sua história. Por isso digo sem qualquer receio de estar equivocado: de tudo o que já tentei para escrever mais, e melhor, nada se compara ao quanto eu li, e leio. Enquanto estamos dando os primeiros passos nesse vasto e fantástico mundo da escrita, a melhor coisa que temos a fazer é passar mais tempo lendo do que escrevendo. Assim, inclusive, quando chegarmos ao ponto de, com segurança e confiança, escrevermos muito mais do que lemos (e olhe que ainda estaremos lendo muito!), saberemos que nos transformamos em escritores.

Que a magia esteja com você!

M. H.

O Nome do Vento

Dia desses estava eu descendo as escadas para sair da faculdade quando, por algum motivo, decidi passar por dentro da livraria Saraiva, que fica num canto obscuro do prédio. Já estava indo embora quando vi um rapaz devolvendo um livro à prateleira. Antes, porém, de eu conseguir ver a ilustração na capa, vi, de relance, a palavra "Vento", e isso, de algum modo, me atraiu.

Assim que ele se afastou da prateleira, peguei o livro e aí sim, surpreendi-me com a ilustração da capa (imagem ao lado). E a parte do nome que eu ainda não havia visto era, justamente, "O nome". "O nome do vento", que título peculiar, curioso, que acendeu uma centelha dentro da minha cabecinha fissurada em Fantasia. Quando comecei a ler as orelhas, já sabia que havia encontrado algo que muito me agradaria. Levei o livro para o caixa e, nova surpresa, eu tinha R$ 15,00 de bônus, o que tornou o livro ainda mais interessante.

Eu não vou resenhar o livro aqui. Primeiramente porque, para ser bem sincero, eu não gosto de resenhas. Gosto quando alguém, que conhece meu gosto literário, me diz: "Leia este, você vai gostar". Detesto deixar de ser surpreendido durante o livro. Por isso falo aqui apenas da qualidade da obra de estreia de Patrick Rothfuss. Para dizer o mínimo, é sensacional. Não apenas a forma com que a história é contada, mas as personagens que dela fazem parte são fascinantes. Por vezes é difícil enxergar o protagonista como herói, e não como vilão. A rivalidade entre ele e seu principal algoz é deliciosa, e muito embora a amizade dele com seus únicos amigos não seja nada à la Harry-Ron-Hermione, é ideal para aquilo que a história se propõe a contar.

Se querem um livro de fantasia que não envolva jorros de mágica pulando de varinhas, belos elfos sussurrando e andando com a leveza das folhas ao vento, um grande e horrendo vilão que deve ser destruído a todo custo e, principalmente, um herói sem defeitos, leiam "O Nome do Vento". Eu garanto que valerá a pena.

Que a magia esteja com você!

M. H.

A Serpente de Midgard


Loki, o traiçoeiro deus que vive junto dos Aesir, teve três filhos com a giganta Angrboda: Hel, que cuidava do mundo dos mortos; Fenrir, o lobo que comeu a mão de Týr ao ser amordaçado e, no fim dos tempos (Ragnarök), travará uma terrível batalha com Odinn, a quem matará; e Jörmungand, a Serpente de Midgard.

Assim como Fenrir é o inimigo primeiro de Odinn, Jörmungand será o oponente de Thor. Na Edda em prosa, mais precisamente na seção Gylfaginning, Snorri Sturluson diz:

"Ele [Odinn] atirou a serpente no profundo mar que circunda todas as terras, e ela cresceu tanto que descansa no meio desse oceano, mordendo o próprio rabo" (tradução livre).

 Odinn, ao ver a monstruosidade dos filhos que nasceram de Loki e Andgboda, aprisionou-os, cada um em um lugar, e Jörmungand foi atirada no oceano. Apesar da luta final entre ela e Thor só se dar no Ragnarök, há uma passagem em que o deus a acerta com Mjölnir, quando estava num barco, pescando com Hymir.

É interessante notar que, na cosmologia nórdica medieval, o mundo era um disco plano, com o oceano circundando a terra, que seria apenas uma ilha no meio do mundo. Jörmungand ficava, assim, enrolada no mar, e seu corpo era tão vasto que ela mordia o próprio rabo, formando um círculo.

Essa imagem que o homem medieval nórdico tinha é explicável pela sua crença religiosa: ao contrário do cristianismo, por exemplo, o paganismo escandinavo não era linear: não haveria um apocalipse onde todos pereceriam e seriam, então, julgados. A mitologia nórdica possuía uma crença cíclica, em que tudo caminhava para a destruição, da qual a vida ressurgiria. Essa é a ideia que se quer passar quando se mostra o corpo de Jörmungand formando um círculo ao morder o próprio rabo: do fim ao recomeço.

Crédito da imagem: Robert Chew

No Ragnarök, palco do duelo final entre Thor e Jörmungand, o deus matará a serpente, mas morrerá envenenado pelo monstro. No site das Sagas de Hartvellir vocês podem ver, em volta da imagem que compõe o site, uma versão de Jörmungand. Pedi para o Rodrigo Ramos dar especial atenção a esse detalhe, pois o caráter cíclico da vida, representado pela Serpente de Midgard, era muito importante para o homem medieval nórdico, e, por isso, também o é para a nossa história.

Que a magia esteja com você!

M. H.