Annabel & Sarah, de Jim Anotsu

A chuva acaba de recomeçar. Bem, está mais para um temporal daqueles de esconder o poodle debaixo do sofá. Eu estava indo para o epílogo de Annabel & Sarah, de Jim Anotsu (São Paulo: Editora Draco, 2010, 156. pág.) quando um trovão tentou - e quase conseguiu - arrancar a janela do meu quarto. São duas e meia da tarde, mas os postes estão acesos.

A primeira coisa que me chamou a atenção em Annabel & Sarah foi seu conceito visual. Eu detesto rosa, mas definitivamente não poderiam ter usado combinação melhor para compor a capa do livro. Os interlúdios nas páginas pretas também deram um toque especial à composição. Tudo isso valorizou, e muito, o conteúdo da obra. Há quem não se importe, mas na minha opinião a apresentação de um livro pode contribuir sensivelmente para a apreciação do conteúdo.

Confesso que eu não esperava muita coisa de Annabel & Sarah. Não com relação à qualidade do trabalho, mas com relação às expectativas enquanto leitor - simplesmente porque esse não é o meu tipo favorito de leitura. Assim, fiquei especialmente contente quando percebi que não apenas a história tinha qualidade, mas também era muito interessante.

O romance de estreia de Jim Anotsu, um cara jovem e com uma bagagem cultural invejável - que se pode reconhecer através das muitas referências no decorrer da história -, possui uma fórmula simples: duas pessoas muito próximas - mas completamente diferentes uma da outra -, em conflito, se vêem obrigadas a superar inúmeras dificuldades para se salvarem, e, é claro, salvarem uma à outra. Para isso, vão a mundos fantásticos, onde quaisquer absurdos podem acontecer - e acontecem -, embarcando numa aventura cheia de fantasia noir, aliada a uma boa dose de sarcasmo com a qual eu, obviamente, me identifiquei de imediato.

Após o pontapé inicial, quando o conflito parte deste mundo para os mundos fantásticos em que Jim Anostu atirou suas gêmeas-protagonistas - a patricinha enjoada Sarah e a rebelde punk-rock Annabel -, é possível identificar referências ocultas - propositais ou não. O mundo de Sarah parece uma versão sombria de Alice, enquanto o de Annabel tem o delicioso gosto de uma mistura entre Sin City e Uma cilada para Roger Rabbit.

Na minha opinião, a melhor personagem do livro é a jovem Beatrice, que auxilia Sarah, não apenas pela sua excentricidade - algo entre a Rainha Branca, de Alice (do Burton) com a sensacional Luna Lovegood, de Harry Potter -, mas também pela notável referência à Divina Comédia.

Assim, para resumir: o livro é bom. Mesmo. E é especialmente bom porque foi escrito por um autor iniciante, brasileiro, e publicado por uma editora que tem por objetivo escancarar as portas do mercado editorial brasileiro para esse tipo de autor. Os leitores tupiniquins só têm a ganhar.

Sei que esta parece uma resenha sem cara de resenha, mas, particularmente, eu não gosto de falar muito sobre os livros de que gostei, simplesmente porque quando gosto de uma história, gosto que outras pessoas se impressionem e deliciem com ela da mesma maneira que eu. Por isso, para mim, as resenhas deveriam servir única e tão-somentemente para dizer se o livro é bom ou não, e se outras pessoas deveriam ou não lê-lo, e por quê.

Assim, posso dizer que Annabel & Sarah, de Jim Anotsu, foi uma surpresa "muito boa-boa", principalmente por ter saído da cabeça e dos dedos de um cara tão novo, que, dada a qualidade do seu precoce trabalho, certamente terá muitas coisas boas com que nos surpreender daqui pra frente. Enquanto isso, a chuva continua a açoitar a janela do quarto. Vai ser uma viagem animada, pela Castelo Branco, de volta a São Paulo.

Que a magia esteja com você!

M. H. 

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